Negócios, política e dívidas ligam Brasil e Venezuela no rastro de Maduro

Reportagem do jornalista Lauro Jardim revelou que a J&F, grupo dos irmãos Joesley e Wesley Batista, é dona de poços de petróleo na Venezuela desde 2024. A informação voltou a jogar luz sobre a relação entre empresários brasileiros e o governo venezuelano. Em novembro, antes da queda de Nicolás Maduro, Joesley esteve em Caracas, onde foi recebido em uma reunião reservada no Palácio de Miraflores, sede do governo do país.

O encontro chamou atenção porque mostrou que o empresário mantinha acesso direto ao alto escalão venezuelano, mesmo após os escândalos que marcaram a J&F no Brasil. Os detalhes sobre esses negócios seguem sob sigilo por cinco anos, após decisão do Itamaraty de classificar telegramas diplomáticos relacionados ao caso, o que aumentou ainda mais as desconfianças.

Esse novo episódio se soma a um histórico antigo e controverso. Durante a Lava Jato, delações afirmaram que marqueteiros ligados ao PT receberam milhões de dólares por campanhas eleitorais feitas na Venezuela. Segundo os relatos, os pagamentos ocorreram ainda quando Maduro ocupava cargos no governo e envolveram viagens organizadas por figuras centrais do partido. Embora os processos tenham sido posteriormente anulados pelo Supremo, o episódio consolidou a percepção de uma relação política e financeira muito próxima entre os governos petistas e o regime venezuelano.

No campo oficial, a relação também deixou uma conta pesada para o Brasil. A Venezuela deve hoje mais de R$ 10 bilhões ao governo brasileiro, referentes a financiamentos de grandes obras e exportações contratados em governos do PT. Como o país vizinho deu calote e não paga a dívida há cerca de sete anos, o Tesouro Nacional precisou indenizar bancos públicos, assumindo o prejuízo.

Na prática, isso significa que o contribuinte brasileiro ficou com a conta. Os recursos financiaram projetos como metrôs, estaleiros e siderúrgicas, todos com garantia do governo brasileiro. Sem acordo para pagamento e sem resposta oficial da Venezuela, a dívida segue crescendo com juros.

Com a queda de Maduro e a revelação de novos negócios no setor de petróleo, o tema voltou ao centro do debate político. O caso levanta questionamentos sobre quem lucrou, quem saiu no prejuízo e o que ainda permanece escondido sob sigilo, em uma relação que misturou negócios, política e dinheiro público por anos.