A crise do transporte público em São Luís é como uma ferida antiga, aberta, infeccionada e maltratada há décadas. Mais uma vez, ao invés de tratar o problema com o antibiótico que resolveria de verdade, com planejamento, transparência e enfrentamento aos empresários, a Prefeitura opta por colocar um simples band aid que apenas cobre o problema, mas não cura nada.
A fala do prefeito Eduardo Braide sobre a greve que já dura cinco dias em duas empresas de ônibus mostra exatamente isso. Ele disse que “mais um ano os empresários deixam de pagar os trabalhadores”. A verdade é que essa ferida nunca cicatrizou porque nunca houve um tratamento sério.
Só este ano, a Prefeitura repassou mais de 66 milhões de reais em subsídios para os empresários do sistema. Esse dinheiro público deveria ser usado exclusivamente para pagar motoristas e cobradores. Mesmo assim, mais uma vez, os empresários deixaram os trabalhadores sem salário e a cidade inteira sem ônibus.
Braide agora afirma que vai depositar o dinheiro diretamente na Justiça do Trabalho para garantir que os rodoviários recebam. Também anunciou que vai liberar corridas por aplicativo para a população prejudicada pela paralisação. São medidas que aliviam o sintoma, mas não atacam a raiz do problema.
A verdade nua e crua é simples. O sistema de transporte de São Luís está deteriorado há muitos anos e nenhum prefeito teve coragem de enfrentar o grupo de empresários que domina o setor. A Prefeitura promete investigar movimentações financeiras do SET, mas isso deveria ter sido feito desde o primeiro dia da gestão. O caos que explode agora não é novidade para ninguém, já que os ônibus continuam velhos, as empresas continuam falidas, os contratos seguem sem fiscalização, os trabalhadores vivem sem garantias e os passageiros são abandonados.
Agora a cidade se depara com corrida de aplicativo custeada pelo município, depósito judicial e promessa de auditoria. Tudo isso é paliativo. Tudo isso é band aid.
O antibiótico de verdade seria romper o ciclo de submissão aos empresários, revisar completamente o contrato do sistema, exigir frota renovada, punir quem descumpre, abrir licitação ampla e garantir transparência total para a população. No entanto, isso nunca acontece.
Enquanto isso, a ferida continua aberta. Continua inflamada. Continua doendo todos os dias. E São Luís segue tentando se mover dentro de um sistema que já ruiu há muito tempo.